sábado, 21 de fevereiro de 2009

UM DIA NO HOTEL BRASÍLIA

11/03/2006 - UM DIA NO HOTEL BRASÍLIA A pedido do meu amigo e internauta, Cláudio Mangieri, resolvo escrever sobre o Hotel Brasília, onde residi, aqui em Brumado, nos idos de 1970. Funcionava em um casarão, onde foi construída a atual Agência do Banco do Brasil, portanto, no centro desta cidade, cujos limites não passavam do Cemitério antigo, Campo dos Prazeres e do Prédio do CASEB, atual Cesta do Povo. Além disso, somente os bairros do São Félix e Cavalhada, atual Juracy Pires Gomes, do Tanque, da Escola Rotary para cima, e algumas ruas periféricas, na parte alta da cidade, espalhando-se depois até o Morro do Escalavrado, com os bairros das Flores, Novo Brumado, Ginásio Industrial, Nobre, Olhos d’Água e Baraúnas, com a expansão ocorrida a partir dos anos 80. Os proprietários do Hotel Brasília, Sêo Álvaro e D. Sinhazinha, procedentes de Rio de Contas, como inúmeros habitantes daqui, constituíram um núcleo familiar que mereceu a minha completa afeição, ao lado de Lygia, Zênia, Marízia Eny, Alvinho, saudosa memória, Lyzemar, um broto nos seus quinze anos, Nivaldinho, mimado e precocemente integrado ao nosso meio. Lá, vi e vivi muitos episódios comuns às pensões e hotéis interioranos, envolvendo os viajantes, hóspedes em lua de mel, mensalistas (Daniel Tanajura, Professor Nivaldo, Xavier, Dominguinho, Jorge Soares), artistas famosos, sem se falar nos parentes da família, dos amigos e dos eventuais comensais, que nunca dispensavam o convite para participar das nossas mesas nos horários das refeições. Além desses circunstantes, os serviçais do Hotel. A negra Dé, de porte avantajado e cara de poucos amigos, porém, inofensiva, Maria de Rio de Contas, de temperamento indócil, Mariinha, a cozinheira sempre festiva, por ser a mais jovem, Chica, a camareira, Joaquim, o garçom, Sêo Olinto Pinto, o Porteiro noturno, que revelava nas oportunidades mais impróprias as nossas madrugadas, e outros cujos nomes não me recordo. Sêo Álvaro Dantas, Sinhô, artesão sapateiro, era um homem circunspecto, memorialista de boa prosa, com narrativas seguras e interessantes, que prestou serviços a Carlos Prestes na sua passagem por Rio de Contas. Com ele fiz alguns serões, na porta do Hotel, ao cair das tardes calorentas, quando retornava do Colégio Estadual. D. Gerolina, Sinhazinha, especulativa por natureza, não deixava que nenhuma notícia da cidade passasse sem apimentados comentários. Era, na verdade, a dona do Hotel, pois mandava e desmandava do seu jeito, e com quem nos relacionávamos com mais liberdade na hora dos acertos ou conversas corriqueiras. Entretanto, disponível, amiga e extremosa mãe, que não media sacrifícios para satisfazer os filhos, enteados e parentes que dela precisassem. Dos fatos presenciados no Brasília, um merece ser recontado agora, aliás, relembrado por Cláudio, sobre um tenente-delegado, que lá fazia refeições, sempre com ares de plenipotenciário, que luzia ao sol, dado a sua cor, contrastando com o impecável branco que vestia costumeiramente. Chegava para o almoço ao meio-dia em ponto. Sentava-se sozinho, austero, de frente para o corredor. Atendido com prontidão, começava um ritual que não passou despercebido por D. Sinhá. Era assim: o Tenente se servia de tudo que estava à mesa. Depois de cuidadosamente misturado, dividia a comida ao meio. Em seguida, tirava do bolso um comprimido e colocava no centro do prato, voltando a misturá-lo. Só, então, começava o seu almoço. — Bom-dia, Tenente – achegou-se, um dia, D. Sinhá, à mesa, sem conter a curiosidade. — Bom dia D. Sinhá! — Respondeu solícito. — Desculpe perguntar, Tenente, que remédio é esse que o Senhor toma com tanto cuidado? — perguntou com indisfarçável escárnio. Sem se fazer de rogado, respondeu o Tenente, não só revelando o nome do remédio, como a posologia prescrita: — Era pra ser tomado no meio das refeições! — Enfatizou com sabedoria. D. Sinhá levantou-se agradecida e me contou, pedindo segredo, o inusitado fato, que divulguei em versos de improviso na ocasião. Aliás, segredo é para isso mesmo! José Walter Pires

Nenhum comentário: