Martha Medeiros: Mulheres de bronze
Já cometi atentados contra a minha pele. Aos 16, 17 anos, ia para a praia de manhã e ficava até o último raio de sol, sem protetor. Em minha defesa, digo que naquela época (Antes de Cristo) não se falava em camada de ozônio e o máximo que se colocava no rosto era Hipoglós, que deixava a nossa turma parecendo uma tribo de aborígenes. Desencanados e desavisados, torrávamos enquanto o rádio tocava: "Garota, eu vou pra California...".
Como sempre vivi no Sul, e aqui no Sul existe uma coisa chamada frio, o verão é a época de aproveitar cada réstia de sol para perder o desbotado e ficar preta, preta, pretinha. Depois vem o inverno e só no verão seguinte para recuperar aquele tom saudável – que eu achava que era saudável.
As coisas mudam, inclusive essa coisa chamada eu.
Outro dia estava dando uma espiada no livro do maquiador Duda Molinos quando deparei com uma afirmação que me calou. Diz ele que não tem coisa mais cafona do que uma mulher bronzeada demais. É uma bandeira de que ela não tem nada mais produtivo pra fazer na vida. Hoje eu concordo e vou mais longe.
Mulheres que não pegam sol e mantém-se alvas, peroladas, fazem um tipo interessante, provocam um efeito Nicole Kidman.
Mulheres que mantêm um tom dourado, contrastando com os dentes branquinhos e com a camiseta clarinha, são um charme.
Mas exagerar no bronzeado deixou de ser uma atitude inteligente, e a gente sabe que a inteligência e a beleza têm parentesco, sim. Algumas esquecem o rumo de casa e fixam residência na praia: são as primeiras a chegar e só saem de lá quando o sol se esconde atrás do último edifício da orla. Sorte delas que os prédios estão cada vez mais altos e roubam a luz mais rápido. São as únicas que se beneficiam com a especulação imobiliária, pois se houvesse apenas as casas de outrora, elas ficariam fritando até o Jornal Nacional começar.
Por algum desvio de ótica, nunca achamos que estamos suficientemente bronzeadas. Não nos consolamos com um tom de chocolate ao leite: queremos o tom de chocolate amargo, que só é lindo para quem traz a cor do berço.
Longe de mim detonar com o sol. Sou leonina e nunca fui pela sombra. Se pudesse, passaria o dia lagarteando. As recomendações dos dermatologistas de só pegar sol antes das 10h e depois das 16h são maravilhosas para se evitar melanomas, manchas e o envelhecimento precoce, mas sou politicamente correta só até a página 2 – alguns dos meus prazeres são tão imperativos que surram minha bem-intencionada consciência. Mas não abuso, juro que não abuso. E uso protetor solar sempre.
Resultado: no verão, fico neguinha, mas não a ponto de parecer que não tenho mais nada de produtivo pra fazer na vida. Tenho. Esse texto de hoje não é o melhor exemplo, mas tenho.
MARTHA MEDEIROS
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segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
MULHERES BRONZEADAS
Martha Medeiros: Mulheres de bronze
Já cometi atentados contra a minha pele. Aos 16, 17 anos, ia para a praia de manhã e ficava até o último raio de sol, sem protetor. Em minha defesa, digo que naquela época (Antes de Cristo) não se falava em camada de ozônio e o máximo que se colocava no rosto era Hipoglós, que deixava a nossa turma parecendo uma tribo de aborígenes. Desencanados e desavisados, torrávamos enquanto o rádio tocava: "Garota, eu vou pra California...".
Como sempre vivi no Sul, e aqui no Sul existe uma coisa chamada frio, o verão é a época de aproveitar cada réstia de sol para perder o desbotado e ficar preta, preta, pretinha. Depois vem o inverno e só no verão seguinte para recuperar aquele tom saudável – que eu achava que era saudável.
As coisas mudam, inclusive essa coisa chamada eu.
Outro dia estava dando uma espiada no livro do maquiador Duda Molinos quando deparei com uma afirmação que me calou. Diz ele que não tem coisa mais cafona do que uma mulher bronzeada demais. É uma bandeira de que ela não tem nada mais produtivo pra fazer na vida. Hoje eu concordo e vou mais longe.
Mulheres que não pegam sol e mantém-se alvas, peroladas, fazem um tipo interessante, provocam um efeito Nicole Kidman.
Mulheres que mantêm um tom dourado, contrastando com os dentes branquinhos e com a camiseta clarinha, são um charme.
Mas exagerar no bronzeado deixou de ser uma atitude inteligente, e a gente sabe que a inteligência e a beleza têm parentesco, sim. Algumas esquecem o rumo de casa e fixam residência na praia: são as primeiras a chegar e só saem de lá quando o sol se esconde atrás do último edifício da orla. Sorte delas que os prédios estão cada vez mais altos e roubam a luz mais rápido. São as únicas que se beneficiam com a especulação imobiliária, pois se houvesse apenas as casas de outrora, elas ficariam fritando até o Jornal Nacional começar.
Por algum desvio de ótica, nunca achamos que estamos suficientemente bronzeadas. Não nos consolamos com um tom de chocolate ao leite: queremos o tom de chocolate amargo, que só é lindo para quem traz a cor do berço.
Longe de mim detonar com o sol. Sou leonina e nunca fui pela sombra. Se pudesse, passaria o dia lagarteando. As recomendações dos dermatologistas de só pegar sol antes das 10h e depois das 16h são maravilhosas para se evitar melanomas, manchas e o envelhecimento precoce, mas sou politicamente correta só até a página 2 – alguns dos meus prazeres são tão imperativos que surram minha bem-intencionada consciência. Mas não abuso, juro que não abuso. E uso protetor solar sempre.
Resultado: no verão, fico neguinha, mas não a ponto de parecer que não tenho mais nada de produtivo pra fazer na vida. Tenho. Esse texto de hoje não é o melhor exemplo, mas tenho.
MARTHA MEDEIROSsábado, 28 de novembro de 2009
145ª Crônica de Lya Luft para Revista Veja em 18/11/2009
Respeito é bom
"Sendo humanos, homens, mulheres e crianças, somos
ainda animais predadores, querendo ocupar espaço a patadas.
A gente precisa ser domesticado desde o dia em que nasce"
Respeito é bom e eu gosto", diz uma das mil frases feitas - esse sutil veneno ou pontapé no estômago - que pontilham nossa sabedoria dita popular. Vale para muitos aspectos da nossa vida. Vamos ver alguns.
Escuto frequentemente a queixa de mulheres de que ainda não são respeitadas como merecem, em seu trabalho ou individualmente. Primeiro, é uma questão de tempo, pois em quase todos os territórios da atividade humana, menos cozinhar e parir, mulheres são novidade. Ainda estamos buscando nosso jeito de trabalhar, de comandar, de usar nossa autonomia.
Ilustração Atômica Studio
Certa vez, querendo me elogiar, um crítico escreveu: "(...) é uma excelente escritora, pois, embora sendo mulher, escreve com mão de homem". Isso por si basta para reconhecer a carga de preconceito que sobrevive mesmo entre pessoas com certo preparo, inclusive mulheres, diga-se de passagem, que em geral são os piores juízes de outras mulheres. Se ela faz bem um trabalho (vale para juízas, reitoras, governadoras, vereadoras, motoristas de ônibus, policiais, grandes cirurgiãs etc.), é porque o faz como homem. Quantas gerações terão de passar, para que isso mude?
Esse preconceito é demorado e obstinado, e nós mulheres colaboramos com ele dando nossa melancólica parcela, por exemplo, no jeito como nos portamos, como nos vestimos, como agimos no trivial, ou quando estamos no poder, qualquer poder. Não é por nada que boa parte das propagandas de quaisquer produtos usa mulheres quase nuas ou em trejeitos sensuais: vende, dá ibope, dá vontade de comprar... o que é um modo de poder. Falo com certa frequência na psicóloga que atende seus pacientes de minissaia ou profundos decotes, e digo que, lidando com a alma desses pacientes, a roupa não parece muito adequada. Nada contra a peça de roupa, desde que num corpo adolescente: adolescentes ainda não atendem pessoas com problemas psicológicos.
Enquanto nos portarmos feito crianças pouco inteligentes, ou enquanto nosso maior trunfo forem nádegas firmes, fica difícil reclamar que não nos respeitam o bastante. Estarei dando muito valor a exterioridades como saia, joias, trejeitos? Estou. A aparência é nosso primeiro cartão de visita, dizendo coisas como: eu me acho linda, eu sou sensual, estou consciente disso. O segundo cartão é a linguagem: se eu não sei nem articular direito meu pensamento falando ou escrevendo, não vou ser um grande candidato a um emprego razoável, pelo menos um cargo em que eu precise pensar... e falar.
Pais também se queixam de que os filhos não os respeitam. Um bom começo de diálogo é indagar como eles, pais, se portam em casa. Gentis um com o outro, com empregadas, com os filhos - ou a gente acha que dentro da porta de casa, com filhos, vale tudo, até grosseria e falta de compostura? O comportamento das crianças e adolescentes e seus conceitos sobre o mundo (eles os têm desde cedo, não se iludam!) refletem sua casa. Um pouco incômodo: querendo ou não, somos seus primeiros modelos, e eles percebem muito bem o que é natural e o que é fingido em nós.
Isso se estende para a escola, onde professores suportam violência verbal e física, agressividade, má-educação, hostilidade por parte de alguns alunos - não todos, possivelmente nem a maioria. Se pudéssemos pesquisar a vida familiar dessa meninada, com frequência iríamos constatar que ela apenas reproduz ou continua, na rua, no pátio da escola e na sala de aula, o tratamento que predomina em sua casa. Lá, talvez, os filhos não conheçam limites ou, quem sabe, o pai é do tipo que aprecia um coronelismo ultrapassado.
Observo muita gente, e não só jovens, dando de ombros ou rindo ao assistir a uma entrevista de alguns dos nossos líderes (ou escutando belas frases sobre ética): também na vida pública, o respeito tem de ser conquistado e merecido. Sendo humanos, homens, mulheres e crianças, somos ainda animais predadores, querendo ocupar espaço a patadas. Se pudermos, em vez de falar, rosnamos; em lugar de curtir, cuspimos em cima. A gente precisa ser domesticado desde o dia em que nasce.
Lya Luft é escritora
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